terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Algures perto de Alnif 23h – Terça-feira, 7 Junho 2005

Distância percorrida: 125 km

O objectivo de hoje seria tentar percorrer o máximo de km possíveis, pois temos de chegar amanhã a Agdz. Em Rissani tomámos o pequeno-almoço enquanto esperávamos que o banco abrisse para levantar mais dinheiro, e também enquanto curávamos a ressaca do dia anterior.Ontem aconteceu algo inédito. Choveu à noite em Merzouga que segundo Hassan, passam-se anos em que pouco chove por cá, mas ontem choveu bem. Isto preocupa-nos, pois suspeitamos que possa ser o vento húmido do Atlântico que ao embater nas encostas do Atlas e ao subir arrefeça, podendo originar muito mau tempo na zona do Toubkal (ascensão a montanha mais alta do norte de África 4167m).Hoje o dia revela-se um verdadeiro pesadelo… Uma estrada interminável que percorre uma paisagem árida, com poucos sítios onde podemos repousar e abastecer de água e quase não vemos pessoas por aqui. Imagino, que se aqui é duro, no deserto seria suicídio!O vento parece querer-nos dificultar a viagem pois sopra mais uma vez contra, o que nos leva de uma velocidade de 25/30 km/h para uns penosos 10/15 km/h. É como se estivéssemos a subir!Como almoço tivemos duas magníficas barras energéticas debaixo de uma tamareira e água quente do cantil, isto sob a influência dos ventos e calor do deserto. Cheio de fome e com sede, começo a ficar farto deste calor e desta estrada interminável, este complicado ambiente está-nos a abalar a nossa moral assim como o físico.Por volta das 15h começamos a ouvir ao longe o ecoar dos trovões. Isto vem dar mais peso à nossa teoria de a tempestade se formar no Atlas e depois percorrer Marrocos para sul, perdendo intensidade, e se for verdade estamos tramados.O fim do dia foi um inferno, com ventos fortíssimos a soprar contra e por vezes cruzados, pedalávamos a 5 km/h e mal nos aguentamos em cima da bicicleta. Mas era importante continuar a forçar, pois hoje queríamos fazer 160 km, para sairmos deste ambiente e nos afastarmos do deserto.Quando o vento abranda aproveitamos e damos máximo, pedalamos a 35/40 km/h, é o tudo por tudo para chegar a um local abrigado antes que a tempestade nos apanhe. Sentimos os trovões cada vez mais fortes e próximos… Não muito longe de nós chegam-se mesmo a formar uns pequenos tornados, nada de muito forte, mas vê-se o seu vortex perfeitamente formado.Passados alguns km somos forçados a parar, começa a cair granizo e o vento é muito forte. Para ajudar não temos muito mais tempo de luz...Montamos a tenda à pressa na esperança de não a molhar muito, metemos os alforges molhados lá dentro e entramos. Nunca pensei encontrar tanta chuva aqui tão próximos do deserto! Ainda bem que decidimos trazer uma tenda e não os sacos de bivaque… Estar agora dentro de um saco de bivaque iria ser um pesadelo. Dentro da tenda está quase tudo molhado, incluindo os nossos sacos camas. Arrumamos tudo ao fundo da tenda e trocamos de roupa… Merda, que stress! Deito-me para dar mais espaço ao Sérgio e enquanto este arruma as suas coisas adormeço.Sou acordado algum tempo depois por ele e já com o nosso jantar pronto: Sopa de rabo de boi! Apesar de termos melhores liofilizados para comer, mas temos de os guardar para a ascensão ao Toubkal, lá fora o vento sopra e a chuva continua a cair.Hoje enquanto pedalava contra o vento e debaixo da chuva, perguntei-me a mim próprio:"O que raio estou eu aqui a fazer?!"Pensei na minha família e amigos e no que eles estariam a fazer naquele momento.Todos encolhidos com material molhado por todo o lado e após termos feito 125 km em condições terríveis, preparamo-nos para dormir. Amanhã temos de chegar a Agdz e não nos espera um dia fácil... TC

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