terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Marrocos em BTT

Fazer a travessia de Marrocos em BTT, e em autonomia. Este foi o objectivo que uniu Tiago Costa a Sérgio Saltão. Das dunas do Sahara às neves eternas do Atlas. A vontade de fazer algo diferente e conhecer desta forma uma cultura cheia de misticismo.

Aqui fica o diário escrito durante essa viagem...

Porto -Sexta-feira, 29 Abril 2005

Falta menos de um mês para a partida, como bons portugueses deixamos tudo para a última! Ainda falta tirar passaporte, arranjar material, rever itinerários... enfim ultimar todos os pormenores. Mas nós já entramos no espirito de Marrocos, calma... sem pressas...Como apenas somos dois e vamos em autonomia a logística é pouca, a maior preocupação é ter o material e toda a documentação pronta. O itinerário, alojamentos, alimentação... isso lá se vê na altura. Apesar de termos um traçado definido, ele não é rígido. Mais importante que o destino é a viagem. Esta é a vantagem da autonomia, a liberdade total! Temos um mês para viajar por Marrocos, se não der por um sitio iremos por outro. Eu pessoalmente tenho três objectivos que não queria abdicar: dormir no Sahara, ascender o Toubkal e visitar Marrakesh.Os planos de treino foram todos gorados, tínhamos planeado fazer treinos conjuntos na Serra da Estrela, eu ainda nem sequer andei com a bicicleta carregada! Nem pedalei mais de 30 km seguidos! Mas isto não me preocupa muito, apenas quero partir, depois logo se vê. Mas lá no fundo algo me diz que deveria ter treinado mais, pode ser que este meu excesso de confiança compense a falta de treino... ou não... O Sérgio tem uma boa forma física e bastante experiência em bicicleta. Ele já tentou uma travessia integral de Marrocos em BTT, saindo de casa em Lisboa. Conseguiu fazer metade, nós agora vamos lá completar. Também já tentou ligar Lisboa aos Picos da Europa, teve de abandonar em Bragança após um acidente ter acordado numa carrinha a caminho do hospital... Ele tem a reputação de nunca completar o que inicia, também tem sempre planos um pouco arrojados. Como a vez que tentou fazer a trans-pirenaica em solitário e também em autonomia total, abandonou após uns dias de angustia total! Esta é a minha companhia para a viagem... isto promete!TC

Ceuta 13h - Quarta-feira, 25 Maio 2005

Boas praias, e um ambiente agradável. Foi assim uma boa surpresa ao chegarmos a Ceuta, após 11 horas de uma viagem bem complicada.Logo em Lisboa informaram-nos que não transportavam as bicicletas na camioneta… Caiu-nos tudo! Mas após muito pedir e um telefonema para a sede lá acederam ao nosso pedido. Isto sem garantia que a empresa espanhola as transportava até Algeciras, pois devido ao tráfico de droga é expressamente proibido transportar caixas.Mas para nós tudo era melhor que ficar logo ali por Lisboa, quanto mais sairíamos de Sevilha de bicicleta.Ao chegar a Sevilha ainda tivemos de dormir uma hora no passeio até a nossa camioneta chegar, e foi para nosso espanto que o motorista nem saiu da camioneta para ver as malas. Eu e o Sérgio nem pensamos duas vezes, metemos as bicicletas e entramos.Chegados a Algeciras foi montar as bicicletas e entrar no barco rumo a Ceuta.Ceuta é uma mistura entre um país europeu e uma parte Africana. É também uma cidade fortemente policiada.No centro parece que ainda não saímos da Europa, com a excepção dos Marroquinos serem em grande número.Junto à fronteira a miséria é total! Barracos apinhados e podres, casas em construção há uns séculos e que pelos vistos vão permanecer assim durante muito tempo, no entanto a famosa antena parabólica encontra-se agarrada a como carraças a cada barraco...Aproveitamos o dia para comer e passear pelas praias!
TC SS

Chefchouen 19h - Sexta-feira, 27 Maio 2005

Distância: 102 km
Velocidade Média: 16 km/h
Tempo a pedalar: 6h

Passar a fronteira foi um pesadelo, aliás como foram os primeiros quilómetros aqui em Marrocos.Muita miséria, uma realidade realmente terrível como o Sérgio descrevia.As estradas são muito boas, embora não tenham passeios, o asfalto está quase sempre em boas condições o que ajudou em grande parte do percurso.Os problemas no percurso começaram na passagem junto as montanhas do Rif, o declive era mesmo muito acentuado, subidas muito íngremes, enfim um pesadelo duro de ultrapassar. Como já seria de esperar o Sérgio está em óptima forma, eu... Bem para quem nunca tinha andado carregado e nunca tinha pedalado mais de 20 km de uma vez acho que me safei (dentro dos possíveis). Ele acaba por sofrer um pouco com a minha condição física mas felizmente é uma pessoas muito paciente, e tal como acordado nunca pedalamos sozinhos. Andamos sempre juntos!Não sei como está o tempo em Portugal mas aqui está mesmo muito quente, o que não ajuda em nada. Para o “marroquino” do Sérgio é apenas mais um dia no campo, enquanto que eu sinto-me dentro de uma torradeira.Ao chegar a Chefchouen fomos presenteados com uma subida de 5 km, com mais de 12% de inclinação, isto tudo sem almoçar. Era nossa intenção chegar a Chefchouen antes do almoço… Foi um pesadelo!Mas o dia correu bem, sentimo-nos em forma (se calhar deveria ter treinado mais).O plano da viagem continua a ser cumprido, estamos com um bom andamento.Chefchouen e uma cidade interessante e bonita, dá gosto percorrer as suas pequenas ruelas no emaranhado das pequenas habitações caiadas de branco e azul forte.Amanha espera-nos mais uma etapa de 110 km, sem saber onde vamos dormir. Mjara não tem quase casas nenhumas, vamos ter que improvisar.
TC e SS

Mjara 22h – Sábado, 28 Maio 2005

Distância: 130.47 km
Tempo a pedalar: 7h16
Velocidade Média: 17.90 km/h
Velocidade Máxima: 62 km/h

Saímos por volta das 7h30 de Chefchouen, o caminho seguia a descer durante 7kms.Nota-se uma grande diferença em relação ao dia de ontem, pois hoje apanhamos grandes campos de trigo e olivais e umas plantas proibidas. Passámos uma zona de produção de azeite, que deixa no ar um doce cheiro... Que saudades de bacalhau demolhado em azeite!Encontrámos pelo caminho vários lagares, e a cerca de 6 km de Ouazane paramos num deles para comprar azeite e mel… Humm!Continuámos a passar por grandes zonas de searas, onde podemos ver grupos de mulheres a cortar o trigo à mão e a transporta-lo em mulas. Mais à frente, um miúdo começou a pedalar ao nosso lado, e o engraçado foi que as suas únicas palavras que se perceberam dele foi quando falamos do Figo, o miúdo reconheceu logo o jogador e começou a gritar o nome dele.Acabamos por nos enganar e fomos parar à Barragem de Al Walda em vez de Mjara, só demos conta do erro 4 km depois de o cometer.Como estava o dia a terminar e não tínhamos sítio para dormir pensámos em montar a tenda.Parámos num café para descansar e ao falar com o seu dono ele deixou-nos ficar lá dentro, o que foi óptimo. Jantamos pão com o mel e azeite comprados de tarde, e que bem que nos soube! Dormimos como anjinhos, não sei se foi do mel, do azeite ou da viagem. TC e SS

Fés – Domingo, 29 Maio 2005

Distância: 107 km
Tempo a pedalar: 6h
Velocidade Máxima: 60 km/h

Ao sairmos de Mjara tomámos o nosso pequeno-almoço, dois queques e meio litro de leite servido numa saca plástica. O leite ainda cheirava a vaca e tinha grandes gomos de gordura… Que bom! Que rica dieta!A estrada seguia plana, o que deu para fazer boas médias.Decidimos parar para almoçar por volta do meio-dia. A ementa ditava, meio pote de mel e meio litro de água. Realmente a agência de viagens não nos enganou! Seria uma expedição doce como o mel!O caminho começou a subir bastante e fazia por volta dos 40 graus, imaginem o nosso almoço ali ás voltas...No final de uma subida brutal conseguimos avistar a cidade de Fés, e foi uma imagem assustadora. Do lado norte da cidade elevam-se grandes colunas de fumo vindo das lixeiras, casas é até perder de vista (aqui moram 1 milhão de pessoas). Mais tarde terão possibilidades para ver as fotografias.Ao entrar em Fés enganamo-nos novamente no percurso e fomos parar a um Cemitério, não é mau pois a cidade é tão cinzenta que não foge muito ao cemitério.Decidimos dormir no Hotel Comercial, em Fés El Jedid, perto de uma praça de comércio fantástica. Aqui aproveitamos para tirar a barriga de misérias.Jantámos num tasco onde as baratas passeavam em cima da mesa, e o Sérgio bebeu água do mesmo copo que todos usam para beber… Penso que foi esta a razão pela qual dormiu como um anjinho. TC e SS

Fés - Segunda-feira, 30 Maio 2005

Dia de descanso

Hoje tirámos o dia para repousar antes da subida ao Médio Atlas.Fomos aos correios, ao banco, telefonar para casa. Aproveitamos também para fazer um almoço de fruta e rever as bicicletas que ainda não deram qualquer problema.De tarde decidimos apanhar um táxi e visitar Fés El Bali, a zona mais antiga.Ao chegarmos a Fés pagámos a um Marroquino para ser nosso guia na Medina… Grande Erro!!!Logo que começámos a andar afastámo-nos da zona mais movimentada e entramos em ruelas escuras e estreitas. Reparámos que há outro que nos segue, mais tarde apresenta-se como sendo da família do nosso guia.Andámos às voltas sem ver nada, eles segredavam algo entre eles e foi aqui que nos apercebemos que estaria a correr algo de errado… Se eles quisessem fazer algo nós não tínhamos forma de escapar.Para acabar fomos a casa da família dele beber chá e ver as vistas sobre a cidade. Felizmente conseguimos que ele nos levasse a praça de táxis pagando 40 Dhms [4 euros].Fés é extremamente grande e confusa daí que pensamos que a melhor e mais rápida forma de conhecermos a cidade seria com ajuda de um guia. Afinal nem todos os marroquinos são sérios e talvez tivéssemos conhecido mais da cidade, para além de não termos passado pelo stress. TC e SS

Azrou - Terça-feira, 31 Maio 2005

Distância: 89Km
Tempo a pedalar: 5h
Velocidade média: 17 km/h
Velocidade máxima: 55 km/h

Pouco após a saída de Fés já conseguimos avistar as montanhas do Médio Atlas.A paisagem vai mudando aos poucos, vê-se mais árvores e também as bancadas de venda de fósseis.A meio do dia entramos em Ifrane, uma vila saída de França, com grandes campos relvados, lagos, muito limpa, e até tem o Hotel Chamonix.O caminho até agora tem sido duro devido ao calor, que transforma qualquer recta ou subida num pesadelo. Às 7h da manhã já o sol está alto e faz muito calor… A meio do dia é um calor abrasador!A chegada a Azrou foi uma grande desilusão, pois esperávamos algo como Ifrane, ou melhor...TC e SS

Midelt - Quarta-feira, 1 Junho 2005

Distância: 126 km
Tempo a pedalar: 6h35
Velocidade Média: 19 km/h
Velocidade Máxima: 65 Km/h

O dia começou com uma grande subida para o Bosque de Cedros, iniciando-se a trepada do Médio Atlas. O bosque é um sítio muito acolhedor, situado a 2104 metros, com cedros enormes com centenas de anos. Vemos por aqui também muitos macacos que chateiam toda a gente, mas não deixa de ser engraçado vê-los habitar nestas enormes árvores.A partir daqui entramos num zona estéril, só terra e pedras. Estamos num planalto rodeados por alguns cumes.A meio passamos por uma fonte de água gelada e aproveitamos para nos refrescar.Finalmente aparece uma grande descida de 12 km sempre a descer. Aqui atingimos uma velocidade valente tal, que uma queda teria consequências no mínimo graves, especialmente quando levamos o capacete bem guardado no alforge.Entrámos no Planalto Arido, com temperaturas a rondar os 45 graus!Baptizamos este planalto de “Planalto do Inferno” facilmente se percebe porquê!Finalmente deixamos de comer sandes e fritos e comemos Tagine, borrego com batata nos típicos potes de barro que tão bem caracterizam a cozinha Árabe.Chegamos a Midelt por volta das 18h, já em grande esforço. Ao longe uma tempestade que se formava virou e veio ao nosso encontro.O tempo alterou-se de tal forma que começou cair uma grande chuvada com relâmpagos, mas pelo menos refrescou a temperatura… TC e SS

Rich – Quinta-feira, 2 Junho 2005

Distância percorrida: 80 km
Velocidade Média: 16 km/h

Abandonámos o Médio Atlas, estamos a caminho do deserto aonde se avistam grandes palmeirais com algumas fortalezas.O calor aperta ainda mais, durante a tarde torna-se mesmo insuportável.Este dia não nos reservou grandes surpresas, daí que foi só pedalar, transpirar, e esperar pelo fim do dia, pelo jantar, e principalmente a noite que se mostrou bem mais fresca. TC e SS

Meski - Sexta-feira, 3 Junho 2005

Distância percorrida: 88 km

Hoje o calor fez a sua primeira vítima! O Sérgio durante uma subida ainda acentuada parou numa banca de fósseis, minerais e antiguidades. Após muito olhar decidiu comprar uma mó de 15 kg!!! A mó seria usada á algumas centenas de anos para moer trigo, e esta após uma observação cuidada revelou ser verdadeira.Eu nem acreditava que ele estava mesmo a comprar aquilo, afinal de contas eram 15 kg a mais para arrastar!O resto do caminho foi muito bonito percorrendo grandes planaltos, oásis e desfiladeiros, paisagens como nunca tinha visto a não ser na televisão quando via provas do Dakar.A noite iria ser passada nas fontes termais de Source Bleu de Meski, onde um grande oásis se ergue no meio do deserto. Imaginem esta paisagem… É bem mais bonita do que podem imaginar!Estamos nós sentados a jantar, quando um jipe de matrícula portuguesa passa por nós e pára alguns metros mais a frente. O Sérgio na brincadeira diz que eram uns amigos dele que o vinham salvar e leva-lo para Lisboa. E não é que eram mesmo?Tratavam-se de antigos professores da faculdade do Sérgio, incrível! Podemos entregar a mó para que eles a levassem para Portugal aliviando assim o Sérgio deste peso! TC e SS

Erfoud- Sábado, 4 Junho 2005

Distância percorrida: 56 km

E aqui estamos nós às portas do deserto. Mais um dia a rolar, mas desta vez com o calor a apertar ainda mais.A entrada em Erfoud faz-se por um imenso palmeiral, mas a cidade em si, tal como todas as outras por onde temos passado, deixa muito a desejar.Sonhava-mos com algo diferente para uma cidade que marca a entrada no grande Erg. Foi chegar e arranjar hotel para descansar.Aqui às 6h da manhã já faz mesmo muito calor, e ao meio-dia esse calor torna-se quase sufocante. TC e SS

Erg Chebbi – Domingo, 5 de Junho 2005

Distância percorrida: 46 km

Arrancamos de manhã bem cedo, e logo à saída passamos por um cemitério, um bom presságio para começar o dia que será passado a pedalar...Os primeiros 25 km foram feitos em estrada asfaltada, sempre ao lado de um cenário impressionante. Começam aparecer os primeiros sinais do deserto.Para variar pedalamos quase sempre com o vento contra!Mais à frente aparece o tão esperado estradão em terra numa paisagem árida. A partir daqui de pouco nos serve o mapa, e a orientação tem de ser "a olho".Ao fim de algum tempo e debaixo de um imenso calor (perto de 45ºC) chegamos à conclusão que estamos perdidos. Com pouca água nos cantis, decidimos seguir em direcção a uma enorme elevação que julgávamos ser uma duna. Por esta altura o Tiago que se encontrava com dores no estômago começa a passar mal, mas não consegue vomitar.Mais uns km à frente encontramo-nos em frente a um imenso mar de areia - as famosas dunas do Erg Chebbi.Paramos, completamente esgotados numa pequena cabana em “adobe” que estava cheia de pessoal. Por sorte, estavam a fazer umas filmagens, e arranjaram-nos água.Foi a partir daqui que o Tiago começou a vomitar, tudo o que tinha e não tinha no estômago. Enquanto ele descansava, fui tratar da dormida, e quando voltei felizmente já se encontrava um pouco melhor.Acabamos por conhecer um marroquino com o qual iríamos passar o dia seguinte.Ao fim da tarde fomos dar uma volta pelas dunas; esperava-nos um cenário impressionante!As dunas em Marrocos chegam a ter mais de 300 m, de uma areia tão fina e dourada que torna estas paisagens únicas e impressionantes.
Nota: O nosso objectivo neste dia era ficar em Merzouga, a qual fica a 25 km do local onde pernoitamos… Tudo se deveu a um pequeno erro de orientação. SS

Merzouga – Segunda-feira, 6 de Junho 2005

Distância percorrida: 26 km

Levantamo-nos cedo, e às 8 da manhã já estávamos com o "nosso amigo"Hassan.La, (o Marroquino que tínhamos conhecido no dia anterior).Seguimos Hassan e um seu colega, eles de lambreta e nós de bicicleta – sempre a abrir no meio do deserto. O Sérgio, que já tinha comprado mais duas mós e uma laje de pedra, ia morrendo só para arrastar todo o peso e acompanhar as lambretas!Chegamos a Merzouga e almoçamos em casa da família do Hassan. À tarde, partimos os 4 de mota, para visitar o "Pueblo Negro".Como é óbvio, eu e o Tiago vamos à “pendura” e eis que, ao tentar subir a berma da estrada, a mota do Tiago entra em derrapagem e estatela-se no chão.Para mim, que ia na outra mota, foi um cenário incrível.Após quase 1000 km sem uma queda e eis que o Tiago se espalha numa lambreta.Todo esfolado mas bem lá seguimos viagem. Á vinda, no meio de uma tempestade de areia, a mota dele tem um furo! Para mim isto foi de mais. O primeiro furo que tivemos em Marrocos foi numa lambreta e para cúmulo, o furo seria remendado com um dos nossos remendos.A noite reservava-nos música e algum Whisky, e lá fomos para a cama à uma da manhã e nos 2 dias que se seguiam esperava-nos uma etapa de 260 km.Nota: Não vamos apanhar o estradão pelo deserto ate Mhamid, pois fomos aconselhados a não o fazer. Além de ser perigoso e pela proximidade com a Argélia, também não conseguiríamos transportar água para todo o percurso. SS

Algures perto de Alnif 23h – Terça-feira, 7 Junho 2005

Distância percorrida: 125 km

O objectivo de hoje seria tentar percorrer o máximo de km possíveis, pois temos de chegar amanhã a Agdz. Em Rissani tomámos o pequeno-almoço enquanto esperávamos que o banco abrisse para levantar mais dinheiro, e também enquanto curávamos a ressaca do dia anterior.Ontem aconteceu algo inédito. Choveu à noite em Merzouga que segundo Hassan, passam-se anos em que pouco chove por cá, mas ontem choveu bem. Isto preocupa-nos, pois suspeitamos que possa ser o vento húmido do Atlântico que ao embater nas encostas do Atlas e ao subir arrefeça, podendo originar muito mau tempo na zona do Toubkal (ascensão a montanha mais alta do norte de África 4167m).Hoje o dia revela-se um verdadeiro pesadelo… Uma estrada interminável que percorre uma paisagem árida, com poucos sítios onde podemos repousar e abastecer de água e quase não vemos pessoas por aqui. Imagino, que se aqui é duro, no deserto seria suicídio!O vento parece querer-nos dificultar a viagem pois sopra mais uma vez contra, o que nos leva de uma velocidade de 25/30 km/h para uns penosos 10/15 km/h. É como se estivéssemos a subir!Como almoço tivemos duas magníficas barras energéticas debaixo de uma tamareira e água quente do cantil, isto sob a influência dos ventos e calor do deserto. Cheio de fome e com sede, começo a ficar farto deste calor e desta estrada interminável, este complicado ambiente está-nos a abalar a nossa moral assim como o físico.Por volta das 15h começamos a ouvir ao longe o ecoar dos trovões. Isto vem dar mais peso à nossa teoria de a tempestade se formar no Atlas e depois percorrer Marrocos para sul, perdendo intensidade, e se for verdade estamos tramados.O fim do dia foi um inferno, com ventos fortíssimos a soprar contra e por vezes cruzados, pedalávamos a 5 km/h e mal nos aguentamos em cima da bicicleta. Mas era importante continuar a forçar, pois hoje queríamos fazer 160 km, para sairmos deste ambiente e nos afastarmos do deserto.Quando o vento abranda aproveitamos e damos máximo, pedalamos a 35/40 km/h, é o tudo por tudo para chegar a um local abrigado antes que a tempestade nos apanhe. Sentimos os trovões cada vez mais fortes e próximos… Não muito longe de nós chegam-se mesmo a formar uns pequenos tornados, nada de muito forte, mas vê-se o seu vortex perfeitamente formado.Passados alguns km somos forçados a parar, começa a cair granizo e o vento é muito forte. Para ajudar não temos muito mais tempo de luz...Montamos a tenda à pressa na esperança de não a molhar muito, metemos os alforges molhados lá dentro e entramos. Nunca pensei encontrar tanta chuva aqui tão próximos do deserto! Ainda bem que decidimos trazer uma tenda e não os sacos de bivaque… Estar agora dentro de um saco de bivaque iria ser um pesadelo. Dentro da tenda está quase tudo molhado, incluindo os nossos sacos camas. Arrumamos tudo ao fundo da tenda e trocamos de roupa… Merda, que stress! Deito-me para dar mais espaço ao Sérgio e enquanto este arruma as suas coisas adormeço.Sou acordado algum tempo depois por ele e já com o nosso jantar pronto: Sopa de rabo de boi! Apesar de termos melhores liofilizados para comer, mas temos de os guardar para a ascensão ao Toubkal, lá fora o vento sopra e a chuva continua a cair.Hoje enquanto pedalava contra o vento e debaixo da chuva, perguntei-me a mim próprio:"O que raio estou eu aqui a fazer?!"Pensei na minha família e amigos e no que eles estariam a fazer naquele momento.Todos encolhidos com material molhado por todo o lado e após termos feito 125 km em condições terríveis, preparamo-nos para dormir. Amanhã temos de chegar a Agdz e não nos espera um dia fácil... TC

Agdz – Quarta-feira, 8 Junho 2005

Distância percorrida: 108 km

Passei muito mal a noite, sempre a acordar constantemente. Por sorte de manhã está bom tempo e como é normal por estes lados, às 6h da manhã já está calor.Estávamos fartos desta estrada. Queremos chegar ao Vale do Drâa e a Agdz o mais rápido possível...Por volta das 13h o inferno voltou, ao longe já víamos a tempestade a formar-se e a nossa suspeita sobre a sua formação no Toubkal é cada dia mais forte e certa… Bolas! Isto pode complicar muito a ascensão e uma das etapas mais interessantes da nossa expedição.É uma corrida contra o tempo. Estamos a 30 km de Agdz, temos de pedalar o mais rápido possível antes de sermos apanhados pelo mau tempo…Em Tansikht somos apanhados pelo mau tempo, chuva, granizo e vento forte (talvez com rajadas de 50 km/h). Conseguimos abrigo atrás de uma escola primária, onde alguns miúdos vêm-se sentar ao nosso lado, embora seja complicado comunicarmos, é bom termos estes pequenos como companhia.Colocamos a hipótese de ter de passar aqui mais uma noite, e enquanto esperamos que o tempo melhore vamos (tentando) conversar com os miúdos.Felizmente o tempo melhora e decidimos continuar e 10 km depois já estamos de novo no meio do calor e do Sol. É assim mesmo Marrocos, afinal de contas não podemos esquecer que estamos em África. TC

Ouarzazate – Quinta-feira, 9 Junho 2005

Ouarzazate – Quinta-feira, 9 Junho 2005
Distância percorrida: 76 km
O nosso primeiro objectivo foi conquistado! Completar o 1250 km que faltaram ao Sérgio hà sete anos para completar a travessia integral de Marrocos. Em duas fases Sérgio Saltão completa a travessia de Marrocos em BTT, e em autonomia.
1997 - Sérgio e Carlos fazem Tanger - Rabat - Casablanca - Marrakesh - Ouazarzate2005 - Sérgio e Tiago fazem Ceuta - Fés - Merzouga - Agdz - Ouazarzate.
Mas teríamos que lutar arduamente até ao fim, e ainda nos falta o toque final, a ascensão ao Toubkal (4164m).Um dia que seria fácil e com poucos quilómetros a percorrer, revelou-se um verdadeiro pesadelo.O Sérgio está muito mal da sua dor de garganta e ouvido, a infecção piorou e tem dificuldades em beber e até em falar. Iniciamos o dia a um ritmo muito lento, rolamos a 10/15 km/h. E passados poucos quilómetros somos deparados com algo que não estava no mapa, uma subida acentuada com 15 km de extensão! Nós nem queríamos acreditar! No início foi muito penoso com o calor já a fazer os seus estragos, e a travessia dos dois últimos dias deu cabo de nós, estamos esgotados.Após subirmos apenas 2 km paramos, ficamos ali os dois a olhar para a montanha em frente e a recuperar a respiração. Não podia crer… Neste ritmo iríamos demorar muitas horas a sair dali. Após termos amaldiçoado várias vezes aquela subida e o calor, bebemos água, o Sérgio ingere dois analgésicos para as dores e continuamos a subir.Após tudo o que passamos não seria esta subida que nos iria derrotar. Dentro de nós começou a nascer de novo a força, lembramo-nos de todas as dificuldades que passamos para chegar ali. Começamos a pedalar com mais força e convicção, rolávamos a 10/16 km/h. Curva após curva, apenas se via o resto da subida, nunca o seu fim, aquilo parecia nunca mais acabar.Mas felizmente lá acabou, e aqui em Marrocos existem duas verdadesUniversais: atrás de uma subida vem sempre outra (ainda maior); e tudo o que sobe vai ter de descer um dia.E como descia! À nossa frente estendia-se uma descida interminável e extremamente acentuada. Chegou a altura de bater o nosso recorde de velocidade. No Média Atlas tínhamos chegado aos 68 km/h, queríamos quebrar a barreira dos 70 km/h. Eu decido colocar o capacete, não que adiante muito; o Sérgio já não tem o seu.A descida começa com curvas, vamos ganhando alguma velocidade. Até que chegamos a uma enorme recta, inclino-me para a frente para tentar fazer peso no guiador e assim ganhar mais alguma estabilidade. Todo o meu corpo vai tenso, não sei se é para ganhar mais velocidade ou se é da tensão. Vamos os dois realmente depressa, vou atrás do Sérgio para aproveitar o seu túnel de vento. Se ele cair eu não tenho tempo de me desviar, e qualquer queda a esta velocidade...74 Km/h, foi esta a nossa velocidade máxima!Quando faltavam 30 km para Ouarzazate, somos brindados com o regresso da chuva. As nossas suspeitas estão confirmadas, a tempestade forma-se no Toubkal e desloca-se em bloco para sul. Um dos indícios que confirma é o caudal dos rios formados por estas trombas de água. O caudal que os rios adquirem é impressionante, em poucos segundos os leitos secos tornam-se autênticos rios. Isto indica uma forte precipitação nas zonas montanhosas.Conseguimos também observar os raios a atingirem os cumes à nossa volta.Isto vai complicar muito a nossa ascensão ao Toubkal. A minha esperança é que estas monções acabem antes da nossa chegada lá, daqui a dois dias. Isto já dura à cerca de uma semana, agora resta-nos esperar.Entretanto estamos abrigados debaixo do duplo tecto da tenda que serve como abrigo improvisado, enquanto o Sérgio conversa com o Sª Pedro dizendo "É só isto que tens?! Seu fraco!!". Acho que o calor já lhe afectou o pensamento.Com o abrandar da chuva e do vento voltamos ao caminho rumo a Oarzazate.Finalmente chegamos, exaustos. Os dias passados nestas condições começam a pesar no corpo, a falta de higiene e a alimentação estão lentamente fazer estragos no nosso corpo. A infecção do Sérgio piora cada dia que passa, e o meu intestino e estômago andam num caos. TC

Algures no Atlas – Sexta-feira, 10 Junho 2005

Distância percorrida: 30 km
Hoje começa a segunda parte da nossa viagem e eu estou todo entusiasmado!Apanhamos uma camioneta que liga Oarzazate a Aguim. Optamos fazer estes 50 km de camioneta para pouparmos tempo e tentarmos avançar o máximo hoje, antes de sermos apanhados pelo mau tempo.À chegada a Aguim o Sérgio diz-me que não se está a sentir nada bem… Eu vejo na cara dele que está a fazer um grande esforço para tentar o Toubkal.Começamos a nossa subida de 70 km até ao Lago Ifni, pensamos chegar lá em dois ou três dias. Depois rezamos para que estejam lá as mulas e os seus carregadores, pois como ainda não estamos na época alta e estamos na vertente menos utilizada, não é certo que as mulas estejam lá.O caminho é duro e bastante íngreme, percorremos um trilho que vai ligando as várias aldeias que por aqui encontramos. Percorremos uma encruzilhada de trilhos, e vamos seguindo o que nos parece o mais correcto, já que nenhum deles aparece no mapa.É meio-dia e nos cumes à nossa volta caem relâmpagos. O tempo lá em cima está muito fechado. Estamos com um bom andamento, conseguimos fazer uma média de 8/10 km/h, e se o tempo ajudar chegamos ao lago amanhã.O estradão começa a fazer os seus estragos, o Sérgio tem um furo e alguns metros à frente rebenta a corrente.Após termos percorrido 20 km começa a chover, voltamos a tirar o duplo tecto para nos abrigarmos. Aqui o granizo é mais forte e maior, e vento também sopra mais forte. Os próximos dez quilómetros são feitos assim: parar para deixar a chuva passar e andar mais uns metros.Chegado o meio da tarde a chuva não passa, apenas fica mais forte. Já tínhamos percorrido 30 km, por hoje só nos resta montar a tenda. Os trilhos estão transformados em lama com grandes poças de água. Ainda por cima estamos com pneus mistos, ou seja, nada apropriados para estas condições.Montamos a tenda debaixo de chuva, tentando molhar ao mínimo o interior da tenda. Enfiamos as nossas coisas (molhadas) lá dentro e entramos, estamos cansados e irritados. Sentimo-nos fortes, apesar de todo o cansaço acumulado. Estávamos a andar bem, mas com estas condições é impossível.Na minha cabeça começam-se a formar bastantes dúvidas, a possibilidade de desistir começa a formar-se. Com estas condições mesmo que consigamos forçar até ao lago, a subida até ao refúgio aos 3200 metros será muito complicado, e a ascensão quase impossível.Enquanto aquecemos água para prepara o nosso empadão de carne liofilizado, tomamos uma decisão. Se amanhã de manhã estiver "bom" tempo, continuamos. Se estiver mau tempo, desistimos.Durante a noite mal prego olho, a tenda é iluminada por relâmpagos que caem nos cumes ao lado e o vento sopra com força. Não quero acreditar que cheguei até aqui e vou ser obrigado a desistir. Ainda por cima por mau tempo… Nunca pus essa hipótese! Para mim seria mais óbvio acontecer algo com as bicicletas ou connosco, mas nunca pensei que o mau tempo fosse um problema. TC

Marrakesh – Sábado, 11 Junho 2005

Pela cidade onde escrevo esta entrada no diário, já podem ver qual foi a nossa decisão hoje de manhã. Os meus sentimentos passam pela frustração mas ao mesmo tempo sinto-me feliz. Frustração por ter de desistir do Toubkal, e feliz por termos feito os 1200 km e por esta fantástica aventura ter corrido muito bem!Às 6h da manhã no Atlas olhamos pela janela da tenda. Temos de nos render às evidências… O tempo está muito fechado e já caem algumas gotas. O Sérgio olha para mim e diz-me que temos de decidir… Contrariando a minha teimosia não tivemos outra hipótese senão virar costas e abandonar! O Toubkal era a cereja no cimo do bolo, mas se calhar estávamos a ser demasiado arrogantes, ou faltou a força para forçar pelo mau tempo. Nós tentamos e demos o nosso melhor tendo em conta as nossas condições. Ficou logo ali o projecto de voltar em Janeiro para tentar a ascensão invernal do Toubkal (mas sem as bicicletas).Iniciamos a descida com as bicicletas, pelo menos agora é sempre a descer.Poucos quilómetros mais à frente apanhamos boleia de uma carrinha que leva os trabalhadores das aldeias para Aguim, e aí apanhamos uma camioneta para Marrakesh.Em Marrakesh ficamos no Hotel Ali, este hotel é mítico, conhecido em todo o mundo por albergar em Marrakesh os viajantes "mais aventureiros". Por todo o hotel circula muita gente jovem de todas as nacionalidades. Estamos num dos pontos de paragem obrigatório para todos os globe trotters e outros "doidos".Após um banho fomo-nos sentar no terraço, que tem vista para a famosa praça Djemaa el-Fna.A praça foi considerada património da humanidade pela UNESCO. Com o chegar da noite a praça fica no auge, transformando-se num palco gigante para um variado espectáculo ao ar livre. Quando se sente no ar o cheiro a carne a grelhar e o aroma das especiarias, a praça enche-se de músicos, bailarinos, videntes, encantadores de serpentes. Nós fomos para a praça encher a barriga de comida e de sumo de laranja. Toda a gente fica na praça até altas horas da noite apenas a comer e a circular por ali. TC

Tanger - Domingo, 12 Junho 2005

Bem cedo de manhã fomos para a estação das camionetas para apanhar a camioneta de regresso a casa, 10h de viagem até Tanger.Já habituados ao caos Marroquino lá conseguimos comprar o bilhete e por as bicicletas lá dentro, não sem antes pagar uma "taxa" pelo seu transporte.Viajar nestas camionetas é algo irreal, o motorista acelera o máximo que pode. Para ele ultrapassar em curvas e lombas sem visibilidade é normal, e ao chegar a uma rotunda apita e acelera ainda mais.Dentro da camioneta de vez em quando levanta-se alguém para vender algo, desde comida a "remédio" que faz bem a tudo. TC e SS

Algeciras – Domingo, 12 Junho 2005

São 23h e só agora é que o barco nos deixou cá. Tivemos que esperar uma eternidade para entrar no barco em Tanger. Tencionamos partir amanhã de manhã bem cedo.Para a dormida de hoje pensamos ficar na praia, mas dava muito nas vistas.Entre ficar num banco de rua e mais uma pensão rasca, decidimos pela pensão rasca. Esta era tão rasca que até uma prostituta tinha à porta. TC

Sevilha – Segunda, 13 Junho 2005

Sair de Algeciras foi um caos! Por alguma razão hoje não há camionetas, dizem que só amanhã ao fim do dia. Recuso-me a ficar cá hoje!Durante duas horas percorremos todos os meios de transporte da cidade, ou não há ou não levam bicicletas. Estamos a ficar fartos disto!Decidimos partir para Sevilha, pelo menos lá deveremos ter mais hipótese de apanhar camioneta para casa.Mas para irmos para Sevilha temos de ter as bicicletas dentro de um saco próprio… Mais uma corrida pela cidade (já com bilhete comprado para as 11h) para arranjar um saco. Felizmente fomos parar a uma loja de montanha (Pumori) que nos vendeu apenas um saco garantindo que não cabiam lá as duas bicicletas.Mas nós como bons portugas lá nos desenrascamos e coube lá: as 2 bicicletas, as 4 rodas, 1 alforge, 1 saco cama, parte da tenda, 1 colchonete e 1 saco estanque.À chegada a Sevilha dizem que naquela estação não há camionetas para Portugal, que podíamos ir à outra que poderia ter. Voltamos a montar as bicicletas e atravessamos a cidade… A cidade é muito bonita! Na outra estação lá arranjamos bilhete para a meia-noite para Lisboa.Aproveitamos as horas livres para deambular pela cidade e ir comer alguma coisa.Para nosso azar os motoristas da camioneta eram os mesmos que nos transportaram para aqui, os mesmo que não queriam trazer as bicicletas! Mas desta vez não levantaram problemas. TC

Lisboa – Terça-feira, 14 Junho 2005

Finalmente em casa! TC